Como sobreviver – ou não -, a um mandato parlamentar

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta segunda/20:

Os plenários da Assembleia cearense e do Congresso Nacional / Montagem sobre reprodução de internet

O Ceará tem 46 integrantes na Assembleia Legislativa e 25 representantes em Brasília – 22 na Câmara e três no Senado. Sem entrar em questiúnculas, há dois tipos de parlamentar – particularmente, de deputados: o que converte o mandato em resultados efetivos para seus representados e os que, inoperantes, se perdem na multidão. No primeiro bloco estão os atentos a demandas, tanto de interesse geral quanto de nichos eleitorais. No segundo, ficam os que, por inaptidão ou conforto, preferem jogar parado. E assim, entre poucas revelações, muitas frustrações e algumas mediocridades, cada um vai tocando o mandato de quatro anos.

E eis que chega mais uma campanha eleitoral. Aqui também é possível uma interessante classificação. No primeiro time há os que honraram os compromissos. Com atuação acima da média, serão reeleitos. Em um nível abaixo, há os que não foram esses balaios, mas conseguirão escapar da degola. Na terceira divisão ficam os de atuação aquém. Estes ou desistem de saída, para evitar vexame, ou dependerão de sobras de voto. Obviamente, não é tão simples assim. Alguns candidatos serão socorridos – tradicionalmente, pelo poder político ou econômico do momento. Outros serão caçados, alvejados e mortos politicamente. É desse jeito na selva eleitoral.

Em 30 dias de suspensão, deputado André Fernandes ganha mais de 240 mil seguidores nas redes sociais

Durante suspensão do mandato, parlamentar improvisou atendimento na calcada da Assembleia / Reprodução Instagram

Arroz de festa no ambiente digital muito antes de ser eleito deputado estadual, André Fernandes (Republicanos) reassume o mandato hoje, depois de trinta dias suspenso, pelo plenário da Assembleia Legislativa.

Sem entrar no mérito do processo que o parlamentar respondeu no Conselho de Ética da Casa, chama a atenção a quantidade de seguidores/inscritos que André ganhou durante o período.

Somando-se as quatro redes/canais – Facebook, Youtube, Instagram e Twitter -, André obteve 241 mil admiradores digitais.

Foram, em média, mais de 8 mil novos adeptos por dia, incluindo finais de semana e feriados.

A votação contra André na Assembleia aconteceu no dia 20 de agosto – data em que o Blog do Erivaldo Carvalho anotou a quantidade de seguidores/inscritos.

No Facebook, André passou de 1.618.640 seguidores para 1.798.814. Um salto de 180.174 pessoas.

O canal no Youtuber teve um incremento de 44 mil inscritos. Lá, o público de André era 490 mil. Hoje, são 528 mil.

O Instagram registrou mais 22 mil seguidores extras, já que o deputado pulou de 457 mil para 479 mil.

No Twitter, o deputado que reassume o mandato soma outros 1,8 mil em cima dos 154,1 mil seguidores anteriores. São, portanto, atualmente, 155,9 mil pessoas no microblog.

Com faro fino para o marketing pessoal, André dispensou o gabinete funcional na Casa.

Nesse período, passou a atender ao público e despachar com sua equipe em uma prosaica mesa de plástico, na calçada da Avenida Desembargador Moreira, a poucos metros da entrada principal da Assembleia.

A suspensão de 30 dias atingia as funções de deputado – proposituras, discussões e votações em comissões e plenário – e o salário do parlamentar. Mas não o impedia de frequentar as dependências do Poder.

Somando-se as quatro principais redes/canal mantidos pelo parlamentar, o state deputy influencer beira, atualmente, os dois milhões de seguidores/inscritos.

Com repercussão nacional, suspensão de André Fernandes pode acirrar ânimos políticos

Da coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta sexta/21:

É difícil dizer se a suspensão por 30 dias do mandato do deputado estadual André Fernandes (Republicanos) foi uma sanção justa ou desproporcional à quebra de decoro parlamentar. Mas é fácil prevê que o episódio não se encerrou ontem. Sem provas, André encaminhou representação ao Ministério Público, afirmando que o também deputado Nezinho Farias (PDT) teria ligações com facções criminosas. Tecnicamente, trata-se de uma denunciação caluniosa, tipificada no Código Penal Brasileiro. É crime contra a administração pública. Mas a Assembleia é uma casa política. Foi, portanto, um julgamento político.

O debate foi da imunidade parlamentar a queixas de perseguição política, passando por apelos de inexperiência pessoal e pregação bíblica sobre misericórdia. Mas, assim como a punição, a reação será política. Suspenso, André voltará de pilha nova, às vésperas da campanha. Engajado nas redes, foi campeão de votos em 2018. É bolsonarista de crachá e apoiador do pré-candidato a prefeito de Fortaleza, Capitão Wagner (Pros). A punição pode ter repercussão nacional. Ontem, André pediu desculpas, mas não pediu arrego. Perdeu, mas saiu atirando. Pode ser a senha de que vem muito mais barulho por aí.

Multa por não uso de máscara é antídoto contra insensatez

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, edição desta sexta/7:

Virou lugar comum a constatação de que a Codiv-19 mudou o mundo para sempre. Na política, isso já é um fato – da nova geopolítica internacional às receitas mais insanas, à base de ozônio. Entre um polo e outro, muitos desdobramentos do dia a dia vão se somando, dividindo opiniões e acumulando polêmicas. Particularmente, nesta pré-temporada de caça ao voto, em que o jogo de simpatia com o distinto público torna-se decisiva na vida pública de personagens, grupos políticos e gestões. De longe, o ponto mais barulhento, depois do case cloroquina, é o uso obrigatório de máscara.

Nesse sentido, foi muito acertada a aprovação, pela Assembleia Legislativa, de multa para quem não usar o EPI em locais públicos ou de uso coletivo. Na versão mais pesada, a sanção aproxima-se de R$ 1 mil. Conforme O Otimista mostrou nesta quinta-feira, 6/8, os indicadores da pandemia no Ceará seguem melhorando, mesmo com a retomada das atividades. E poderiam estar ainda mais consistentes, não fossem as cotidianas cenas de descuido e insensatez observadas, ultimamente. Num país em que há “leis que pegam e leis que não pegam”, é esperar para saber o alcance prático da medida.

Questão de fé e defesa da vida

Apresentado por Walter Cavalcante (MDB), o projeto que prevê multa pelo não uso de máscara enfrentou resistências, a exemplo da deputada Dra. Silvana (PL), que, médica, disse preferir tomar hidroxicloroquina, preventivamente, a usar o artefato. Silvana pertence às fileiras evangélicas, enquanto Walter é católico militante. Ambos têm plateias específicas. Mas o uso obrigatório de máscara vai muito além da questão da fé – na base da qual, independentemente do credo, deve estar a enfática defesa da vida.