Eleições municipais, padrinhos políticos e institucionalidade

Impessoalidade é um dos princípios legais da gestão pública


Neste pleito eleitoral, em todo o Brasil – particularmente em Fortaleza -, muito se tem ouvido, falado e comentado sobre apadrinhamentos e alianças políticas. Os defensores e o próprio candidato José Sarto (PDT) não perdem a oportunidade para se associarem a Camilo Santana, o principal cabo eleitoral da Capital. Ao mesmo tempo, defenestram o candidato Capitão Wagner (Pros), por este ser identificado com o desgastado Jair Bolsonaro. O candidato do Pros, por sua vez, tenta minimizar a ligação direta que teria com o presidente da República, afirmando ter relações pessoais com o governador e que, prefeito de Fortaleza, buscaria parcerias com o Abolição.

Como se percebe, trata-se, em ambos os lados, de uma mistura gelatinosa de discurso político, ambientado numa campanha eleitoral disputada, com distorção dos papéis institucionais de Município, Estado e União. Da forma como os argumentos são colocados pelos candidatos, parece que as relações políticas de afinidade, simpatia e trato pessoal entre os dirigentes estão acima dos organismos de Estado. Que este pode ser manipulado em nome dos interesses daqueles. Claro que não é para ser assim. Prefeito de qualquer município – especialmente de uma capital -, deve ser tratado de forma isonômica, independentemente da coloração ideológica de seu grupo político.

Pelos princípios legais da administração pública
Prefeito municipal, governador de Estado e presidente da República são figuras regidas pela legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência – os velhos e bons princípios constitucionais que norteiam a administração pública. Outra questão: a legislação prevê repasses financeiros regulares entre os entes – do maior para o menor – nas mais diversas áreas de atuação das gestões. Assim foi feito, justamente, para que, entre outros pontos, processos eleitorais não ameaçassem a estabilidade e o funcionamento dos governos.

Teste de Sarto é recado a candidatos, aviso a eleitores e cobrança à Justiça Eleitoral

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta quarta/7:

Em quarentena, candidato do PDT está atuando na campanha remotamente, pela internet

O teste positivo do candidato José Sarto (PDT) para covid-19 mexeu com a sucessão eleitoral em Fortaleza. Não bastasse o pedetista liderar uma coligação com vistosa musculatura, o presidente da Assembleia Legislativa representa, na disputa, o grupo dos Ferreira Gomes, hegemônico no Ceará – estado reduto de Ciro, na lista dos políticos mais relevantes do País. Com o diagnóstico, aspectos foram redesenhados. Internamente, com redirecionamento de focos e revalidação de agendas, etapas e prioridades. Externamente, com mais atenção aos protocolos sanitários e ao esforço de parecer que tudo segue normal.

O resultado do exame de Sarto também foi sentido entre os demais concorrentes à cadeira de Roberto Cláudio. Não somente pelo momento fair play, em que quase todos os candidatos se solidarizaram com o deputado, publicamente, desejando-lhe plena e rápida recuperação. Os próprios concorrentes deverão, a partir de agora, ser mais cuidadosos. Afinal, todos, sem exceção, estavam tão sujeitos à contaminação quanto o pedetista. Principalmente, os candidatos que vão às ruas com o chamado volume de campanha – aquelas dezenas de pessoas no entorno, vestidos a caráter e com material de divulgação.

Dá para participar sem entrar nas estatísticas
Para os imprudentes que no dia a dia se aglomeram – em torno de candidatos ou não -, sem as precauções mínimas, fica o alerta de que a pandemia ainda não foi embora e qualquer vacilo pode ser fatal. Particularmente, em bairros populares, onde o vírus circula de forma muito mais presente do que nos quadriláteros nobres da apartada Fortaleza. Com a abundância de plataformas online, dá para acompanhar, debater e se comunicar com candidatos, sem precisar entrar para as estatísticas – de infectados ou algo pior.

Banho de água fria nos protocolos
O caso mais relevante até aqui de contágio pelo coronavírus na disputa da Capital foi um banho de água fria nas expectativas da Justiça Eleitoral, quanto à obediência aos protocolos sanitários. O aviso foi dado. Ou as autoridades que organizam e fiscalizam o pleito agem agora ou, no limite, poderemos ter o recrudescimento da situação.

Sem regras seguras, abstenção será recorde
Daqui a seis semanas e meia teremos o 1º turno das eleições. Não será surpresa se depois de uma campanha insegura do ponto de vista sanitário, os índices de abstenção ultrapassarem as últimas médias. A Justiça Eleitoral, que faz campanha pela presença maciça de eleitores às urnas, precisa ajustar as regras de anticovid-19.

Campanha eleitoral: a diferença entre estratégias bem boladas e fracassos retumbantes

Mais da Coluna Erivaldo Carvalho (O Otimista, sexta/25):

A nova fase do pleito vai separar vitoriosos e perdedores

Eis que, mesmo atropelada pela pandemia de covid-19, a campanha eleitoral começa para valer, no rádio, TV e internet, a partir deste domingo (27/09). Diz-se “para valer” por que somente os incautos convictos ainda não perceberam que há muito tempo foi escancarada a temporada de caça ao voto. Muitos, inclusive, só darão conta da nova fase do pleito quando estranharem o novo horário da novela, do noticioso radiofônico ou seus amigos atualizarem a foto de perfil nas redes sociais, declarando suas preferências políticas. É essa a visão do leigo, o cidadão mediano que mal sabe onde guardou o Título de Eleitor.

Mas, para candidatos e seus staffs, que vivem a política na veia, cada campanha eleitoral é um marco. Para os políticos, propriamente, pode representar a diferença entre o início de uma grandiosa vida pública e a aposentadoria precoce. Mas não somente isso. Daqui a mais ou menos 50 dias, teremos o resultado, muito bom ou péssimo, de misturas insanas entre ex-adversários ou o repentino distanciamento de velhos aliados. Para muito além da separação entre vitoriosos e perdedores, teremos a exata medida de estratégias bem boladas e aplicadas com maestria. Ou os fracassos retumbantes e seus algozes.

Quanto mais atento, menos presa fácil

Política e democracia – duas das maiores invenções da humanidade -, têm no centro o homem sociável, suas circunstâncias e os interesses coletivos. Isso, em tese. Na prática, é a disputa por narrativas, dentro de processos comunicacionais sedutores, nos quais cabe quase tudo. Quanto mais atento, menos presa fácil. Fica a dica.

Com pandemia, acirramentos e riscos de fake news, eleições de 2020 serão históricas

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta sexta/28:

Independentemente de variáveis do pleito, eleitor terá variedade de opções

As eleições municipais deste ano serão muito diferentes de todas as realizadas até aqui. Na forma como as campanhas se darão, por causa da pandemia; nos discursos políticos, em função da forte polarização, assim como pela rapidez e perigo das mensagens, por conta, respectivamente, da consolidação das redes sociais e fake news. No caso específico de Fortaleza, espera-se uma proliferação de candidaturas e, consequentemente, riqueza de propostas para o presente e futuro da Capital do Estado. Será em um ou dois turnos? Pelas variáveis postas até aqui, é impossível dizer.

O que pode ser cravado é a variedade de opções que o eleitor terá na cabine de votação. Também não se sabe qual será o peso do rádio e TV na cabeça do eleitor. Uma aposta segura é de que olhos e ouvidos estarão voltados para telinhas de smartphone, na palma da mão. Alguns dizem que a posse dos próximos prefeitos, em janeiro de 2021, se dará em clima de ressaca econômica. Outros, que o País ainda estará tonto. Por isso a importância de critérios rígidos, antes de apertar o “confirma”. Assim como o Brasil, gestões municipais não são para amadores. Mas isso já é outra história.