Sucessão de RC: circunstâncias que podem explicar o resultado deste domingo

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta sexta/13:

Capitão Wagner (Pros), José Sarto (PDT) e Luizianne Lins (PT): um dos três sucederá o atual prefeito de Fortaleza / Divulgação

Antes de mais nada, algumas questões já postas, que muito remotamente serão contrariadas no próximo domingo (15): a sucessão do prefeito Roberto Cláudio (PDT) será em dois turnos. Os candidatos Capitão Wagner (Pros), José Sarto (PDT) e Luizianne Lins (PT) disputam as duas vagas para a segunda votação no próximo dia 29. Na cotação do dia, Capitão e Sarto irão à segunda rodada de votação. Ou isso ou todos os principais institutos de pesquisa do País, sem exceção, serão desavergonhadamente desmoralizados. Passados três meses, entre os primeiros movimentos concretos de candidaturas e o fim da atual campanha para o primeiro turno, temos a seguinte configuração: dos três prefeituráveis acima, Capitão e Luizianne acertaram muito, mas também cometeram graves erros na pré e na campanha, enquanto Sarto, mesmo com equívocos pontuais, somou muitos bônus em torno de si. Peguemos o elemento candidato a vice-prefeito, por exemplo.

Capitão: indecisão e outras barreiras cobram a fatura
Ao candidato do Pros faltou poder de decisão – foram cotados Mayra Pinheiro, Geraldo Luciano, Heitor Freire etc  -, e sobrou empáfia – desfecho que poderá, inclusive, repercutir na ausência de apoio desses personagens e seus grupos ao Capitão, na hipótese de o deputado federal ir ao segundo round. No auge da campanha, vieram as estocadas do governador Camilo Santana na suposta liderança do motim de parte das tropas da Polícia Militar e outras clássicas tentativas de desconstrução do personagem. Mesmo assim, o Capitão segurou-se, praticamente, no mesmo patamar de onde começou nas intenções de voto.

Luizianne: sem estômago e um pesado fardo para carregar
A Luizianne e seus seguidores faltaram estômago e paciência com potenciais aliados, que poderiam ter lhe rendido preciosos minutos no rádio e TV, além de mais estrutura de campanha. Para complicar um pouco mais, a petista teve de carregar, durante toda a campanha, o fardo da rejeição  – a candidata é líder no amargo quesito – em parte explicada pela natural fadiga de material, por ser ex-prefeita. Aqui há um ponto de incursão: os ataques cirúrgicos desferidos pelos governistas, o que ajuda a explicar a sangria de Luizianne nas intenções de voto fora da margem de erro.

Sarto: as convergências que fizeram o pedetista decolar
E Sarto, o que fez em relação ao candidato a vice? Simples. Seus líderes maiores acoplaram à chapa encabeçada pelo PDT o PSB de Eudoro Santana, pai de Camilo – que indicou Élcio Batista. A isso se somaram a massiva associação do nome do presidente da Assembleia Legislativa – que em si já não é pouca coisa -, a exitosa gestão Roberto Cláudio, a maior coligação partidária – com quase seis centenas de candidatos a vereador -; um latifúndio de tempo no rádio e TV e uma gigantesca estrutura de comunicação e assessoria jurídica. Muito dificilmente poderia resultar em outro desempenho, se não o que as pesquisas mostraram até aqui. Isso, apesar da valsa dançada à beira do abismo pelo grupo de Sarto, quando levou ao limite do tempo a indicação do candidato a prefeito. O pedetista poderia estar melhor posicionado.

O resultado do 1º turno eleitoral e o drama de quem quase chegou lá

Capitão (Pros), Sarto (PDT) e Luizianne (PT): um dos três ficará de fora do segundo turno

De hoje a exatamente uma semana, na próxima segunda-feira (16), Fortaleza amanhecerá com somente dois candidatos, que disputarão entre si, diretamente, a sucessão do prefeito Roberto Cláudio (PDT). Outros nove concorrentes terão ficado para trás. Por um motivo simples: não terão voto suficiente para seguir. Para a maioria dos degolados pelas urnas nem surpresa será. Eles mesmos sabem muito bem que, palavrório de expectativas sobre si mesmos à parte, nunca tiveram chances reais. O dramático mesmo será para o terceiro lugar, competitivo, como mostram todas as pesquisas, que semanas atrás apostava que iria para a segunda etapa da disputa.

A primeira observação relevante sobre os dois candidatos que subirão de nível neste game democrático é que disputa direta, tête-à-tête, não significa, necessariamente, igualdade de condições. Tirando-se a divisão, meio a meio, do tempo de propaganda política, todas as demais variáveis que atuaram até aqui permanecerão no tabuleiro. E até com alguns agravantes. Exemplos: dada a expectativa de poder – e político vive disso -, quem vencer no primeiro turno é, em tese, mais atrativo para apoios dos ex-candidatos majoritários, além do magote de vereadores eleitos e reeleitos. Assim como na natureza, na política, a água costuma correr para o mar.

A restrição da campanha no rádio e televisão
Com senões pontuais, a média das pesquisas de intenção de voto vem mostrando regularidade e consistência na evolução dos postulantes a prefeito de Fortaleza. Do início de outubro até aqui, José Sarto (PDT) subiu, Capitão Wagner (Pros) oscilou para baixo na margem de erro e Luizianne Lins (PT) perdeu fôlego. Por conta da pandemia, a Justiça Eleitoral no Ceará proibiu atos de campanha que aglomere pessoas. Ou seja, tudo ficou, praticamente, restrito ao rádio, TV e internet. Não deixa de ser desfavorável a quem cresce fazendo política na rua.

Com quadro indefinido, Fortaleza vive sob apreensão das pesquisas

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta segunda/26

Pesquisas da semana poderão apontar tendências e movimentos decisivos da disputa / divulgação

A menos de três semanas do resultado do primeiro turno eleitoral, não dá para dizer que entramos no momento decisivo da campanha eleitoral. Com raríssimas exceções, o período crítico é, sempre, o trecho depois da última curva, na cabeceira da reta final. Ou seja, a poucos dias da votação. Particularmente, em Fortaleza, onde o quadro, na cotação do dia, sugere que o próximo prefeito sairá do trio que vem pontuando em dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto desde o início: Capitão Wagner (Pros), Luizianne Lins (PT) e José Sarto (PDT). E só. Nem a dupla que irá ao segundo turno dá para cravar.

São três grupos experientes, estruturados, com talentos políticos em cada um deles muito acima da média, com líderes nacionais consolidados e conhecedores do tabuleiro do jogo. Além de – não menos importante -, se conhecerem de verões passados. Mesmo isso considerado, porém, esta semana vem com a expectativa de apreensão, por conta de mais uma rodada de pesquisas. No caso, Datafolha e Instituto Paraná. Estaremos diante de um divisor de águas, porque para muito além da “fotografia do momento”, será possível comparar índices com a mesma metodologia, com tendências e movimentos. Tremei.

Luizianne e Sarto: eleitorado semelhante e confronto direto

O perfil do eleitor de Fortaleza com intenção de votar no candidato José Sarto (PDT) é mais semelhante ao de Luizianne Lins (PT) do que os que pretendem optar por Capitão Wagner (Pros).

A constatação está na pesquisa divulgada nesta segunda/12, pelo Instituto Paraná.

Mais detalhes da sondagem podem ser conferidos aqui, aqui e aqui.

De acordo com os dados, Capitão Wagner pontua melhor no eleitorado masculino mais jovem, de baixa escolaridade e da faixa populacional economicamente ativa.

O candidato do Pros vai perdendo força à medida em que a idade e a escolaridade do eleitor avançam.

Veja a imagem abaixo:

Fonte: Instituto Paraná

Já Luizianne e Sarto oscilam tanto entre as faixas etárias quanto de escolaridade, e apresentam pelo menos três semelhanças

A petista e o pedetista aparecem melhor nas faixas eleitorais a partir de 45 anos de idade e entre quem tem ensino médio completo ou incompleto.

Ambos também são melhores fora da faixa eleitoral da população economicamente ativa.

O que isso significa, supondo que Capitão, teoricamente, já esteja com o passaporte carimbado para o segundo turno?

Simples.

Que o candidato do PDT, que já esperava por uma disputa com Luizianne pela segunda vaga no segundo turno, agora, com eleitores semelhantes, sabe que o confronto será ainda mais direto.

Forram entrevistados 740 eleitores, entre os dias 9 e 11 de outubro.

A pesquisa foi registrada no TSE sob o número CE-07388/2020.

Em 2018, Ciro Gomes foi vítima de acordo PT-PSB

Candidatura petista de Marília Arraes foi retirada em PE e Márcio Lacerda foi rifado em MG. No acordo, Ciro ficou sem o PSB

O anúncio do apoio de Ciro Gomes à pré-candidatura de Elmano de Freitas (PT), em Caucaia, para atrair o apoio do PT em Fortaleza, em detrimento de Luizianne Lins, remete a outras tentativas do gênero, cujos desfechos não foram os mais alvissareiros.

O exemplo mais emblemático, porque ganhou repercussão nacional na última corrida presidencial, deu-se em 2018.

Candidato ao Palácio do Planalto, o ex-ministro Ciro assistiu à uma manobra do PT e PSB nacionais, pela qual os dois partidos abriram mão de candidaturas próprias – competitivas, diga-se -, para apoiar as reeleições do petista Fernando Pimentel (MG) e do peessebista Paulo Câmara (PE).

O golpe em Ciro, porém, veio do alcance do acordo: pelo acertado, o PSB ficaria neutro na eleição presidencial, sem se coligar com nenhuma outra força. No caso, com o presidenciável pedetista.

À época, PDT e PSB nacionais estavam em avançadas conversas para selarem uma aliança, que poderia ter feito a diferença ao projeto palaciano cirista.

Resultado da opereta: Paulo Câmara foi reeleito, Pimentel rodou e o presidente da República é um criador de emas.

Cenários em Fortaleza com e sem candidatura do PT

Com Luizianne Lins candidata:

Capitão Wagner (Pros) será um candidato anticirista e antipetista.

Luizianne Lins (PT) será uma candidata antibolsonarista e anticirista.

O nome pedetista será um candidato antibolsonarista.

O pedetista disputará voto com Luizianne no campo antibolsonarista.

Luizianne disputará voto com o Capitão no campo anticirista.

Nessa dinâmica, o Capitão leva vantagem.

Os votos que não irão para o candidato do Pros serão divididos entre PDT e PT.

Os votos que não forem nem para o PT nem PDT irão para o Capitão.

Sem Luizianne candidata:

Capitão Wagner (Pros) será um candidato anticirista e antipetista.

Nome do PDT, apoiado pelo PT, será maciçamente antibolsonarista.

Nessa dinâmica, não haveria divisão dos votos antibolsonaristas.

PT versus PT em Fortaleza

Luizianne é pré-candidata à sucessão de Roberto Cláudio / Diego Camelo/Divulgação

No Roda Viva desta segunda-feira, 8, o governador Camilo Santana, petista-cirista, defendeu uma coligação PDT-PT para a disputa da sucessão de Roberto Cláudio. “Pelo bem de Fortaleza, da democracia, seria importante uma aliança”, disse.

Mas foi o finalzinho da fala do governador, na mesma declaração, que mais chamou a atenção deste blogueiro: “Se isso ocorrerá, só o tempo dirá”, afirmou Camilo, parecendo profetizar a queda de braço que surge no horizonte.

Controlado por alas ligadas aos deputados federais Luizianne Lins e José Nobre Guimarães e outros menos vistosos, o PT da Capital segue célere, rumo à candidatura própria. A tese é apoiada pelo ex-presidente Lula, que vê no protagonismo eleitoral do PT, em capitais e maiores cidades, agora em 2020, uma espécie de ensaio geral para 2022.

Conforme dito pelo Blog do Erivaldo Carvalho, a ex-prefeita e pré-candidata Luizianne, anticirista, poderá se beneficiar da rejeição de Ciro Gomes ao lulopetismo. Agora, com a declaração de Camilo, já há sinais de que o movimento de resistência aumentará, o que consolidaria a unidade em torno do PT na cabeça de chapa.

Por óbvio, petistas graúdos defensores da aliança, que orbitam em torno do Abolição, não assistirão parados nem calados aos desdobramentos. Entre eles, Nelson Martins, ex-articulador-mor de Camilo, e Acrísio Sena, defensor de uma frente partidária ampla em Fortaleza.

Com remotas chances de recuo de ambos os lados, a tendência é termos PT contra PT em Fortaleza – por candidatura própria, aliança com o PDT ou mesmo por uma candidatura blasé.

Luizianne conhece o jogo que será jogado. Ela costuma crescer na briga. Faltava-lhe, entretanto, a figura do inimigo externo, maior e mais poderoso. Faltava. Agora, ela e seus seguidores tentarão reeditar o Davi contra Golias – a famosa aula de como vencer um gigante.

Por falar em ensinamentos, sabe-se que a história jamais se repete. Por outro lado, é totalmente inseguro dizer, a preço de hoje, que o PT subirá no palanque do PDT em Fortaleza. Como ponderou o próprio governador, ““Se isso ocorrerá, só o tempo dirá”.

Rejeição de Ciro Gomes ao lulopetismo pode beneficiar Luizianne Lins em Fortaleza

Ex-ministro prega aliança com PT em Fortaleza, mas rejeita aproximação com lulopetismo nacional

O cirismo disputa com o lulopetismo o protagonismo da centro-esquerda no Brasil. Foi assim em 2018 e deverá ser em 2022 – com uma eleição municipal no meio.

No jogo de xadrez que está sendo jogado, Lula acenou para Ciro, no âmbito nacional, enquanto Ciro sinalizou aliança com o PT, em Fortaleza, neste 2020.

Ao gesticular para Ciro, o lulopetismo quer ser o carro-chefe antibolsonarista em 2022, tendo Lula como estrela maior.

Já em Fortaleza, ao acenar para uma aliança com o PT, Ciro pretende galvanizar para si a simbologia de uma eventual vitória sobre o bolsonarismo em seu berço político.

Também de olho em 2022.

Em entrevista ao jornalista Mino Carta (assista aqui), poucas horas depois de defender aliança com o PT, Ciro mandou os “fanáticos do lulopetismo” para a PQP – por extenso e em bom áudio.

A centro-esquerda tem muitas histórias de derrotas para contar, sempre que o umbigo falou mais alto do que o perigo do inimigo comum.

Então, fica assim: com a reação de Ciro, a aliança nacional PT-PDT, que já era improvável, para 2022, andou algumas casinhas para trás.

Já a pré-candidatura de Luizianne Lins – anticirista -, em Fortaleza, andou algumas casinhas para frente.