Apelidos, narrativas e juízo de valor

Com dois deputados pedetistas e um petista no comando, a chamada “CPI do Motim” foi instalada na Assembleia do Ceará / Paulo Rocha/Ascom/AL-CE

Jornalistas têm uma espécie de fetiche por números redondos e apelidos. É verdade que os dois artifícios facilitam a vida de quem tem de espremer sínteses de conteúdos em pequenos espaços, com o máximo de entendimento e o mínimo de ruído ou ambiguidade na mensagem que pretendem passar adiante. Mas, em alguns casos, a alcunha vira, em si, uma narrativa. Portanto, transforma-se em juízo de valor sobre o que se pretende informar ao respeitado público. São vários os casos, entre os quais se destacam desde os “Anões do Orçamento”, na década dos anos 1990, aos três baluartes do noticiário dos últimos tempos: “Operação Lava Jato”, “Mensalão” e “CPI da Covid”.

Em terras alencarinas, o jornalismo pregou, para sempre, o rótulo “Dólares na Cueca” ao episódio em que um assessor parlamentar foi flagrado, num aeroporto de São Paulo, com células da moeda americana em vestes íntimas. Mais de uma década e meia depois, eis que o fenômeno está de volta. Meio que um veículo de imprensa seguindo o outro, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada na Assembleia Legislativa do Ceará, com o objetivo de investigar repasses financeiros para entidades ligadas a forças de segurança, mais do que de repente foi batizada de “CPI do Motim”. Trata-se de uma pecha que se não é de caso pensado, ingênua também não é.

Sobre perfis parlamentares
Sob o ângulo do desenvolvimento, gestão pública e iniciativa privada são peças da mesma engrenagem. O Estado tem, entre outras funções, além da arrecadação pura e simples, a distribuição de bens e serviços. Em qualquer época ou lugar, governos constituídos são o principal indutor dos avanços econômicos e sociais, independentemente de outras variáveis e atribuições, a exemplo do poder de polícia e representação etc. Aqui nasce o grande problema de nossas representações parlamentares. A maioria tem visão excludente, pouco dialogada ou mesmo amadurecida diante dessa dinâmica.

CPI será judicializada
Não restam dúvidas de que a CPI da Covid será judicializada. Não somente porque será o desfecho de um rito que começou com a própria instalação do colegiado. Mas, principalmente, porque os bolsonaristas, além de terem jogado a toalha no ambiente da comissão, propriamente, estão vendo na briga – mais uma -, nos tribunais uma trincheira extra para alimentar os seguidores.

Uma CPI, dois relatórios
Na esteira da judicialização da CPI da Covid, também está dado que teremos o relatório final oficial, assinado pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL), e o relatório paralelo, que vem sendo preparado por palacianos. Tanto um quanto o outro não deve surpreender. Cada lado no seu palanque, oferecerá sua visão e versão sobre os fatos – para além da verdade factual.

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